sexta-feira, 16 de março de 2012

Morte anunciada e vida que segue

Ontem eu tive um sonho estranho... sonhei que havia perdido importantes anos da minha vida, carregando um peso morto e totalmente desnecessário. Enquanto sobrevivia aos dias, um após o outro, tentava em vão ressuscitar o de cujus.

Enquanto as pessoas notavam aquela cena desprovida de sentido - andar por aí arrastando um corpo em decomposição - afastavam-se, por motivos óbvios: odor. Só eu não sentia, estava acostumada. Eu negava a mim mesma os fatos... e seguia puxando pela mão um morto.

Analisando a coisa de uma maneira bem fria, era como se eu estivesse brincando com as bonecas, "interagindo", fingindo que ouvia respostas e conselhos, que elas se importavam com quem eu sou, com o que sinto. 

Planos são feitos com pessoas de carne e osso, sangue, sentimento e inteligência. Com quem está ali, ao lado, e não sendo puxado, arrastado, carregado. Cadáveres não têm projetos de vida, muito menos de vida em comum. São somente uma representação material, composta de líquidos, fluidos, gases, algo que um dia foi gente de verdade.

Percebi que esse sonho foi real, foi experimentado, vivenciado. O desconforto da aceitação dessa descoberta, essa raiva que sinto de mim mesma, tudo isso está sendo processado e vai passar, muito em breve.

Talvez por isso os ritos fúnebres sejam essenciais... só que hoje eu me dei conta de que fiz tudo o que manda o post mortem: decretada a hora, autópsia, liberação do corpo, preparo, burocracia com cartório e cemitério, velório, enterro (ou seria cremação?), missa de sétimo dia... só que fui me dar conta, na missa de trinta dias, que a vida segue seu curso. 

Parece que a negação da "morte" faz parte também do processo de seguir adiante. Não quero ser assombrada por lembranças, assaltada por esperanças. Morte é morte, fim. Nesse instante, nesse caso, sequer penso sobre as minhas crenças espirituais. Prefiro pensar que existe somente uma lápide, e que a alma aguarda o famigerado juízo final.

Sim... agora, aguente as consequências. Eu estou livre, e viva!