terça-feira, 14 de agosto de 2018

"Apenas a madrasta" - compartilhando a crônica mais verdadeira que já li sobre o assunto

Recebi essa crônica num grupo do qual participo. Ao ler, percebi quantas verdades estão ali descritas... vale a reprodução aqui no Blog, com os créditos devidos. (as palavras grafadas em azul são links, que conduzem ao texto original, publicado em


Não se esqueça que você é apenas a madrasta
28/4/2018


Você vai aprender a amar uma criaturinha que não é sua. Vai passar as mãos pelos seus cabelos enquanto ela se encosta sutilmente ao seu braço. Você vai sentir a falta dela nos dias em que não está e vai mudar uma parte gigantesca dos seus planos em virtude dessa pequena pessoa. Mas não se esqueça, você é apenas a madrasta.

Na sua bolsa vai haver resto de bolacha, suco de caixinha, brinquedos espalhados, lenços para o nariz escorrendo. Nas suas compras do supermercado vai haver muito leite, as frutas preferidas deles, um xampu que não arde nos olhos, um docinho para mimar. Mas não se esqueça, você é apenas a madrasta.

Você vai buscar na escola, vai chamar os amigos deles pelo nome, vai carregar mochila, lancheira, casaco, vai cumprimentar os professores, vai cumprimentar as outras mães. Não, calma. Ato falho. Outras mães, não. As mães. Porque você não é mãe, você é apenas a madrasta.

Você vai estudar com eles, vai ter que relembrar como somar frações, vai ler dezenas de livros infantis. Você vai assistir filmes da Disney, da Pixar, na Universal. Vai assistir Disney Junior, Disney Chanel, Discovery Kids e boa parte da seleção infantil da Netflix. Vai saber exatamente a qual filme se referem os brinquedos do mês no Mc Donald’s. Mas não se esqueça, você é apenas a madrasta.

Suas madrugadas serão interrompidas. Pesadelos, dores de barriga, febre. E você nem terá tempo de pensar no seu incômodo, porque o sofrimento deles te fará fechar os olhos para todo o resto. E a dor deles vai doer em você também. Mesmo que você seja apenas a madrasta.

Você vai lavar seus cabelos, enxugar os vãos dos dedos do pé, espalhar filtro solar com cuidado. Você vai forrar o vaso sanitário e vai tentar lavar bumbum em pia de banheiro de shopping center. Vai pingar remédio no nariz e escolher bem os agasalhos. Vai lembrar de pegar o casaco deles e vai esquecer do seu. Mas não queira decidir muito. Você é apenas a madrasta.

Você vai precisar das broncas. Vai ser inevitável. E você vai ter medo. Porque os pais têm aquela tal garantia eterna do amor incondicional. Mas você não tem. E vai dar medo de acharem que você exagerou e do afeto dos pequenos por você se ver relativizado. Mas você vai ter que dar a bronca, não tem jeito. Sem nunca, nunca esquecer que você é apenas a madrasta.

E todos vão poder surtar um dia ou outro. O pai. A avó. Os tios. A mãe. O avô. Mas você, você não. Porque você é a madrasta. E você passou muito tempo explicando para as pessoas que você não era a madrasta má dos contos de fadas. Que você era apenas uma pessoa normal que se apaixonou por alguém que já tinha um filho, que você acolheu sem restrições. Então você não tem o direito de surtar e colocar tudo a perder. Porque você é apenas a madrasta.

Você vai amar sem se colocar limites. Vai alterar muitas rotas da sua vida. Você vai abrir mão de noites de sexta e de manhãs preguiçosas de sábado. Você vai se entregar, mesmo sem saber se um dia, lá na frente, esse afeto será reconhecido. Você vai ser o melhor que você pode. Mesmo que o melhor possível seja ser apenas uma madrasta.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Um desabafo sobre a [invisível] fibromialgia alheia

Minha profissão e meu estado de saúde são um típico casal bate-apanha-chora-acaba-perdoa-volta, em looping infinito. Daí ontem, para minha surpresa, aguardava há três horas pela minha vez de realizar sustentação oral, quando um processo pautado imediatamente anterior ao meu quase me fez chorar. Explico.

 

Recorrente com 36 anos, auxiliar de cabeleireira, portadora de fibromialgia e depressão, cujo pedido de amparo ao portador de deficiência fora julgado improcedente. A perícia, realizada por médico ortopedista (!), atestou que "A periciada apresenta fibromialgia, escoliose lombar e depressão. A fibromialgia pode ser tratada com relaxantes musculares e prática de atividade física. A escoliose não está causando limitação funcional, apenas deformidade estética. No entanto, a pericianda apresenta quadro depressivo que necessita de tratamento e acompanhamento com psiquiatra e psicólogo. Portanto, atualmente, a periciada apresenta incapacidade total e temporária para o trabalho devido depressão."

 

Pausa para que uma lágrima escorra pela face...

 

Bom, eu não aguentei... levantei e fui até a bancada, e disse à Presidente da Turma que sou portadora de fibromialgia, para surpresa das 3 juízas; elas então passaram a me questionar sobre diversas coisas. Eu disse, categoricamente, que o diagnóstico é feito após serem descartadas uma série de outras doenças, e que nenhum exame se presta a isso. Como eu não me contenho, pedi vênia e afirmei que o laudo deveria ter sido feito por psiquiatra ou reumatologista.

 

Veja bem, eu convivo com o diagnóstico há 2 anos e pouco. Isso porque, após anos tratando isoladamente os sintomas com diversos especialistas, eu mesma pesquisei e cheguei à conclusão de que deveria consultar um reumatologista, que foi quem de fato concluiu o "diagnóstico".

 

A OMS reconhece a fibromialgia desde 1992; os parâmetros definidos pela Sociedade Americana de Reumatologia, em 2010, para o diagnóstico são:

 

a) Ter um índice de dor generalizada de 7 (em escala de 0 a 19) e índice 5, em escala de gravidade sintomática de 9 pontos; ou índice de dor entre 3 e 6, porém com escala de gravidade sintomática de 9 pontos;

 

b) Ter tido esses sintomas, na mesma intensidade, por pelo menos três meses;

 

c) Não ter algum outro problema que possa ser a origem da dor. A equipe médica deve fazer um diagnóstico diferencial, para descartar outras patologias que possam ser confundidas com a fibromialgia, como a polimialgia reumática, infecções virais, artrite reumatoide em fase inicial, déficit severo de vitamina D, tumores cancerosos malignos, entre outros.

 

Só para ilustrar o quanto as especialidades generalistas estão aquém da capacidade de diagnóstico, compartilho aqui o link de uma entrevista feita com o médico Fernando A. Rivera, que trabalha na Clínica Mayo de Jacksonville, na Flórida, Estados Unidos, é membro do Colégio Médico dos Estados Unidos e docente da Escola de Medicina associada à Mayo. O título da entrevista é: "Especialista explica a fibromialgia, doença crônica do sistema nervoso".

 

Você deve estar se perguntando o porquê desse post... explico: se nem a comunidade médica está preparada para diagnosticar e tratar a fibromialgia, o que podemos esperar de juízes que julgam causas envolvendo laudos médicos???

 

Minha opinião pessoal? Não há esperanças, minha gente; saí da sessão ontem pensando que um câncer, apesar do estigma, é factível... exames de sangue, de imagem, são capazes de atestar, e assim o paciente pode se submeter ao tratamento sendo amparado pelo sistema previdenciário ou assistencial. Para quem tem fibromialgia, restam opções como seguir trabalhando, sem chorar nem reclamar, e principalmente, sem se ausentar do trabalho para não ser demitido; ser cobaia de tratamentos experimentais, com fármacos os mais diversos, que alteram a química cerebral, cujas bulas parecem tratados de efeitos colaterais. Não temos direitos, ninguém nos enxerga, somos um exército de zumbis que vagueia perdido e sem perspectivas.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Confesso que queria que você morresse [logo]

Há coisas que eu tenho dificuldade de confessar a mim mesma; quando pensamentos desse tipo me tomam de assalto, é quase que automático dizer "-não, não pense nisso, não deseje a morte de alguém!".

Numa vibe "aceita, que dói menos", estou deixando que a cabeça pense isso mesmo, sem nenhuma interferência... veremos no que vai dar. O fato é que sim, eu sou dessas, rsrsrs. Preferia não ter que lidar com ~gente~ que nem merece essa designação.

Como não posso mudar o mundo, nem argumentar com Deus sobre as minhas razões [numa tentativa de convencê-Lo a reconsiderar, e antecipar o checkout de uns e outros], eu rezo para tentar me libertar, aprender a fazer a Elza 


Um dia, quem sabe, eu alcançarei a graça divina de ligar o botão do f***-se, e conseguir compreender que somos todos imperfeitos; olhar e aceitar que nem sempre o bom-senso prevalece, e que adult@s imatur@s existem por aí afora aos borbotões, e provavelmente ninguém será capaz de detê-los. 

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Para você, que vê a vida passar pela janela e não vive

Minha mãe sempre diz que "pena" é um sentimento terrível para se ter em relação a outrem. Dentro da capacidade quase infinita dela, de olhar as atitudes alheias com olhos empáticos, não me recordo se já a vi "sentir pena" de alguém.

***Corta para mim***

Eu sinto raiva... eu guardo rancor... eu preciso conter meus impulsos primitivos na quase totalidade dos meus dias. Anteontem, logo cedo, eu podia jurar que me transformaria no Hulk, ou num super sayajin, e foram necessárias algumas intervenções para evitar danos. Passou.

Sério, há situações que deveriam permitir agressões físicas; não falo em lesão corporal grave, homicídio, nada disso; um tapa daqueles que o Seu Madruga levava da Dona Florinda, lembra? That's what i'm talking about. Sou partidária da ideia de que certas pessoas, que parecem andar por aí anestesiadas, sei lá, um ou dois tapas poderia(m) surtir efeito positivo, tipo reconectar os neurônios. O(s) tapa(s) seria(m) uma espécie de "chupeta mental", mal comparado ao procedimento geralmente utilizado para permitir que uma bateria "arriada" funcione novamente, compreende?

Honestamente, o mundo não me parece um lugar propício para esse povo off-life: gente que não vive, uma coisa numa vibe "walking dead", que se arrasta por aí como se vivo ainda fosse, porém na real não passa de um troço ocupando espaço, enchendo o saco, e que diferentemente do que ocorre no seriado, não tem por objetivo matar/comer os vivos, e que igualmente [infelizmente] não podemos matar. Só nos resta desviar. 

N'algum momento da vida, eu senti raiva de gente assim. Hoje, eu sinto pena. A imagem mental que se forma aqui na minha cabeça é de que são zumbis, sem perspectiva alguma, sem objetivos, uma existência vazia e miserável, com uma "roupagem" de normalidade. Creio que, quando as luzes se apagam, não sobra nada além da imagem borrada e desfigurada no espelho. E medo. Apegam-se às coisas e às pessoas, numa tentativa vã de se manter boiando, não afundar. Uma baita mentira, que se retroalimenta. 

Eu só observo esses arremedos de gente, sinto pena. Nesse ponto, acabei me rendendo à caridade de, pelo menos, rezar. Se antes eu julgava tudo por uma ótica egoísta e orgulhosa de que faziam de propósito para me afrontar, superei a ponto de conseguir enxergar por cima do muro, e ver que não, não é para me aborrecer, é simplesmente ausência de capacidade, de comprometimento, de responsabilidade m-e-s-m-o. Pior: é desamor. 

Fico pensando na culpa que carregam essas pessoas que desamam. E no silêncio, na omissão, de quem tinha obrigação de, se não dar os tapas que eu falei, pelo menos responsabilizar objetivamente, punir, cortar as benesses... em resumo, obrigar a amadurecerem. Seria salutar para o protegido, e libertador para o protetor. 

Enquanto escrevo, questiono-me a quem interessa, e a que se presta a manutenção desse status quo? Seria por que o protetor se sente culpado de algo? Ou seria só o comportamento sanguessuga do protegido? Cenário provável, a meu ver, seria a conjugação de ambos. 

Quem sabe, um dia, eu alcance a evolução espiritual da mamãe, e deixe de sentir pena dessas almas.