sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A vida como ela não deveria ser

Mesmo em meio à tempestade, há momentos em que é possível contemplar um pouco de paz de espírito... O dia de hoje foi programado para as idas do vovô aos médicos. Minha responsabilidade era ir com ele (de ambulância) até o Hospital Universitário, para a consulta com o neurologista.

A remoção foi tranquila, assim como o retorno para casa. O entremeio da história é que foi osso duro de roer. Primeiro, o atendimento rápido, já que ele está com a perna completamente imobilizada, razão pela qual estava numa cadeira de rodas. Segundo, a atenção do médico residente, que fez inúmeras perguntas, exames no paciente, coisa bem rara de se ver na medicina atual.

Quando passamos para a parte mais burocrática, o bicho pegou! É um tal de "procure fulano e ele vai preencher esse cadastro"; o tal fulano fica passeando e quando retorna, uma carinha tão mal humorada que dá dó! A informação final era de que o medicamento só seria fornecido na próxima quarta, já que segunda seria "enforcada" por causa do feriado de finados.

Meu digníssimo namorado insistiu para que eu fosse à farmácia, que estava em balanço, consequentemente fechada para atendimento ao público. (em tempo: isso só acontece em hospitais públicos mesmo! Onde já se viu fechar a farmácia e interromper o fornecimento de medicação???). Lá fui eu, explicar para a balconista a situação. Creio que a visão de um homem de 86 anos, altamente debilitado pelo tempo e tantas doenças, e ainda por cima engessado, sensibilizaram o coração dela, que me indicou a sala da pessoa que poderia resolver o meu caso.

Lá fui eu, imbuída da mais alta humildade que poderia haver dentro de mim. Bati, pedi licença e entrei. Quando fiz menção de abrir a boca, a farmacêutica soltou os cachorros, rodou a baiana, mandou sair da sala. Esbravejou reclamações, saiu entrando de sala em sala, reclamando a quem (não) quisesse ouvir. Em algum momento, ouvi-a dizer que "teria que explicar à Polícia Federal os motivos dos relatórios não baterem com o estoque"

Ok, eu compreendo que uma instituição federal, que forneça medicamentos de altíssimo custo (como é o caso), tenha problemas com estoques, afinal, sabemos como funciona a corrupção nesse país. Agora eu pergunto: O QUE DIABOS EU TENHO COM ISSO??? Dali a pouco ela puxa os documentos da minha mão, e sai novamente, esbravejando. Retorna, com uma mísera caixa do medicamento, joga uma lista na minha frente e me manda assinar.

Aí vem a cereja do bolo... ela simplesmente me expulsou de lá, dizendo que eu não retornasse. Engoli seco, agradeci mesmo assim, e saí com o choro preso na garganta. Saímos com o vovô, um empurrando a cadeira de rodas, o outro (eu) segurando a perna engessada. Sabe-se lá o que é precisar dessa gente, e simplesmente ter que "aceitar" ser tratado assim, uma vez que se vai lá mensalmente?

Pois é, o sapo ficou um tempo atravessado na garganta. Passou, é verdade. Mas agora fica aquela sensação de que se nós, que temos ainda algum tipo de condição, plano de saúde, essas coisas, recebemos esse tipo de tratamento, e retornamos ao bel-prazer dos funcionários, para conseguir consulta, renovar cadastro... imaginem quem depende de ônibus, de ter grana para ir e voltar, ficar hooooooooooras esperando... Ô Senhor, meu coração fica apertado de ver aquelas pessoas esperando, esperando, esperando...

Daqui a pouco, vovô vai ao Hospital São Mateus (particular), outra realidade. Lá, pelo menos, vai ser tratado com mais dignidade. Muita gente viveu, vive ou vai viver uma vida inteira sem saber o que é ser tratado com um mínimo de dignidade.