sábado, 4 de fevereiro de 2012

Feridas cauterizadas sem anestesia

O ser humano é um bocado estúpido... e capaz de manter uma ferida aberta, sangrando por dias, meses, anos. A dor, com o tempo, torna-se companheira e já nem incomoda tanto. Até que o corpo vai perdendo as forças, e a pessoa só percebe quando já está fraca em demasia.

Reagir, em casos assim, é questão pura e simples: sobrevivência. E como a chaga já tem alguns aniversários de existência, o remédio é radical. Cauterizar a sangue-frio, por mais que provoque uma dor lancinante, fecha à força o que um simples band-aid teria dado jeito, acaso a criatura tivesse se dado conta de que sangrava.

O meu processo começou ontem. Não digo que extirpar essa bala sem anestesia tenha sido fácil, mas fiz como nos filmes: mordi um pano, queimei a ponta da faca e voilà. Não gritei, não fiz escândalo... simplesmente senti a lágrima escorrer quente pela face, enquanto sangrava já sem aquele corpo estranho em mim.

Confesso que um repouso teria sido recomendado, mas eu não aguentei. Limpei a bagunça, cobri o ferimento e saí. Convivi muito tempo com uma dor, que na verdade me fez mais companhia do que quem causou; uma "cirurgia" não é páreo. 

É hora de deixar o meu corpo curar a si mesmo. Mas também é hora de (re)começar a viver.