quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Para A.

Pequena A.,

provavelmente, quando tiver idade suficiente para ler e compreender o que vou registrar a seguir, [espero eu mesma poder repetir inúmeras vezes até que] você encare isso com a maior naturalidade do mundo, e [nos] fite com olhos de espanto sobre todo o clamor que algo tão simples causou, durante tanto tempo.

A verdade é que nós, os adultos, costumamos complicar coisas que para vocês, crianças, é tão simples e tão natural; nós temos medos mais infantis que monstros embaixo da cama, ou bruxas dentro dos armários; colocamos vocês em bolhas, quando na verdade nós é que lá deveríamos estar, visto que vocês têm uma habilidade que nós perdemos ao longo da vida...

Quando crianças, a disputa é por bolas e bonecas, pela atenção dos adultos; as dúvidas residem entre que sabor de sorvete escolher. Nós, os adultos, disputamos coisas e pessoas que sequer são nossas de verdade. Sabe aquele nome escrito no solado da bota do Woody, do Toy Story? Pois é, aquilo que disputamos não possui o nome do Andy escrito, entende? 

Não sei se deveria lhe dizer isso, mas as bobeiras que as crianças cometem nem são assim tão graves... nós, os adultos, fazemos bobeiras enormes, maiores que a distância entre o lugar onde estamos, e aquele onde queremos chegar... não importa que lugar seja esse: pode ser o shopping, uma praia, a casa da vovó... sabe quando a gente fica perguntando "a gente já chegou?" e algum adulto responde "não, ainda não"? Pois é, as nossas bobeiras são do tamanho dessa ansiedade!

Sinto muito que você tenha presenciado momentos ruins, eu juro que se eu pudesse, jamais teria permitido que ocorressem. A minha sobrinha, a Duda, diria "olhe, vocês estão brigando? olhe que eu resolvo hein!", rsrsrs. Acredite, ela diria isso.

Eu só queria que você soubesse que eu não vim subtrair nada na sua vida. Na verdade, você começou a mudar a minha... assim como o anjinho que Deus tirou da minha família, pouco antes disso tudo começar. A Letícia ficou muito dodói, e isso mexeu com algunss adultos que faziam bobeiras enormes, e que pararam e viram que não precisava daquilo. Muita coisa se resolveu, a missão dela terminou, e ela voltou para o Papai do Céu... mas não nos deixou sozinhos, porque já tinha pedido para que outro anjinho viesse e mostrasse o quanto a vida é simples e maravilhosa. O nome desse anjinho é João Pedro, e ele tem olhos azuis como os seus.

Quem sabe, muito em breve, nós adultos sejamos capazes de perceber que, assim como ocorreu quando o dodói da Letícia apareceu, chega a hora de por um fim nas bobeiras todas... deixar de lado aquilo tudo que não tem o nome da gente no solado, sabe? Ou voltar a viver e sentir como vocês, crianças... deixar que as coisas fluam e o tempo se encarregue de sarar os dodoizinhos, das raladuras e quedas que a gente leva enquanto está brincando de viver.

Se você pudesse compreender, certamente colocaria muitos adultos de castigo no cantinho da disciplina, para pensar direitinho sobre o que têm feito de errado, para depois pedir desculpas, dar beijo e abraço e prometer não fazer novamente. Muito mais que rótulos e posições no tabuleiro de xadrez [um dia você vai aprender o que é, e a jogar], o que realmente importa em meio a toda essa bagunça é dar-lhe a segurança necessária para que você cresça e se torne uma mulher saudável, bonita e, acima de tudo, feliz. 

Ah! eu também acredito que você vai perceber - se é que já não percebeu - que as madrastas só são más nos contos de fadas; na vida real, é totalmente diferente e muito mais legal. 

Feliz aniversário!