quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Razão, profissão e emoção.

Em certas situações, algumas pessoas não conseguem sobrepor razão à emoção. 
Hoje, compareci à segunda audiência de uma cliente, com quem compareci em outubro de 2010, para uma audiência frustrada. Compadeço-me tanto em casos que envolvem direito de família, que evito atuar na área. Especialmente quando há interesses de menores.

Pois bem, o processo foi ajuizado em meados de 2009, requerendo alimentos para 3 crianças. Infelizmente, a realidade demonstra que, via de regra, os homens, quando se separam das mulheres, abandonam moral e materialmente os filhos advindos da relação. No caso, o cidadão mudou-se por 3 vezes, numa clara tentativa de se furtar do recebimento da intimação. Solução? Requeremos - lá em outubro de 2010 - que fosse efetuada por oficial de justiça, no endereço profissional.

Entre aquela data, e a efetivação do direito, muita água rolou por debaixo dessa ponte: houve uma enchente no fórum, a vara passou pelo procedimento de virtualização dos processos, todas as petições que protocolamos - inclusive o pedido de juntada da procuração (para ter acesso aos autos) quanto de que a intimação se desse via meirinho - simplesmente desapareceram. Um belo dia, talvez em junho deste ano (já nem me lembro), recebi a informação de que a audiência havia sido designada.

Para encurtar o panorama que motivou o presente post, a cada troca de acusações, a cada manifestação de uma das partes, mais o meu coração ficava apertado. Imagino esses três (14, 9 e 4 anos), em meio ao fogo-cruzado de duas pessoas que lhes deveriam cuidar e proteger. Chegou ao ponto de, em se tratando da visitação (por sinal, nem era objeto da ação), o pai informar que as duas crianças menores poderiam sair da casa da mãe, em finais de semana dele, e irem a pé, sozinhos, até a casa dele, que seria próximo da dela. Ficamos - a juíza e eu - estarrecidas. O noticiário cheio de casos de desaparecimentos, abusos, etc., e a intransigência de ambos colocava em risco a integridade física de um menino de 9 e outro de 4 anos.

Enfim, pedi à mãe, não como advogada, mas como cidadã, que ela passasse por cima daquele orgulho e cuidasse para que as crianças fossem entregues ao pai pessoalmente. Ela anuiu. Ao término, sentamos e conversamos. Tentei sensibilizá-la, para que buscasse o mínimo de diálogo, em prol dos filhos. Dispus-me, inclusive, a conversar com o atual esposo dela, com quem a filha adolescente discutiu, motivando a saída da casa da mãe, para morar com o pai.

Até para cobrar honorários - de caráter igualmente alimentar, em essência - fico constrangida. Mas, segundo Fernanda, amiga advogada e de quem "herdei" a cliente, deve-se cobrar, ainda que pouco. Tudo que é de graça não tem valor, segundo ela.

Mas que me doeu receber - hoje, e no ano passado - doeu.