sexta-feira, 27 de maio de 2011

A profissão e os abraços

Já mencionei aqui, inúmeras vezes, que nem sempre estou satisfeita com a profissão que abracei. Há momentos em que quero guardar num baú o diploma, os conhecimentos dos bancos da faculdade e da lida diária, para me aventurar em mares por onde nunca estive, e por isso mesmo são tão tentadores.

Desde que estive em São Luis/MA, entre os dias 18 e 20 de maio de 2011, vivenciei experiências difíceis de traduzir em palavras, tamanho o impacto que exerceram sobre mim. Para quem não sabe, estive por lá para comparecer ao mutirão 2011 da Justiça Federal, visto que o foco do escritório é o patrocínio de causas previdenciárias, mormente aquelas em que são parte os sofridos agricultores, dos mais longínquos e esquecidos rincões deste país.

Pois bem, eu, que adoro as facilidades da contemporaneidade, da tecnologia, do acesso à informação em tempo real, da moda e de um sem-número de futilidades também, convivi por 2 dias com senhores e senhoras cujo semblante é a maior prova dos anos sob o sol e as mais adversas condições; muitos sequer sabem ler, escrever, e dependem de terceiros até para se deslocar com segurança.

Inicialmente, quando cheguei ao local das audiências - um ginásio coberto, quente à beça - preocupei-me com o fato de usar terno naquele calor, com o cabelo e a maquiagem. Passados trinta, quarenta minutos, descobri que aquela experiência seria, positivamente falando, inesquecível. Para mim, advogada, eram tão-somente audiências, nas quais eu teria de convencer o juiz e o procurador do INSS, através de provas documentais e testemunhais, do direito do meu cliente.

Só que para essas pessoas, aquela era uma oportunidade única e divisora de águas, representando a possibilidade de poder prover o sustento da família com uma renda de R$ 545,00 mensais, e diminuir a dependência da lida exclusiva no campo. E aquelas horas em que convivi com cada um deles foram inacreditáveis.

Para resumir, uma das histórias: uma senhora que pedia aposentadoria por idade rural, e já estava no ginásio desde as 7h, para uma audiência a ser realizada às 10h40. Mesmo com a demora (a audiência só aconteceu às 13h!), ela mantinha um sorriso apreensivo, e questionava se tudo terminaria bem. Comeu as bolachas cream-cracker que lhe foram entregues pelos homens do exército (estavam lá para apoiar a organização), e tomou o suco de uva (cheio de corantes e açúcar). Esperou, esperou, e quando eu, numa das muitas vezes em que reclamei da demora (preocupada, principalmente, com aqueles idosos no calor, aguardando uma eternidade), ela disse: "quem anda, chega; quem espera, alcança". Emudeci.

Lá pelas 13h, ela foi inquirida pela juíza, e enquanto a testemunha era ouvida, uma chuva torrencial teve início. O barulho era ensurdecedor, muita água caindo sobre as telhas de amianto, quase não se ouvia perguntas e respostas do depoente. Quando o primeiro trovão estrondou, ela, sentadinha numa cadeira no canto da sala, encolheu-se e cruzou os braços sobre o peito, fechou os olhos e seu rosto ficou retesado, numa expressão de medo!

O outro advogado estava presidindo a audiência, e eu estava ao lado... levantei e fui até ela, segurei sua mão. Como eu estava em pé, ela encostou a cabeça na lateral do meu corpo e disse que sempre teve medo de trovões, desde criança. Fiquei ali, imóvel, enquanto ela tremia inteira de medo, a cada vez que a sala improvisada tremia...

A chuva cessou, a audiência terminou, e não estamos certos de que a juíza julgará o processo a favor da D. Atelvina. Mesmo assim, ao sair da sala, ela me abraçou, agradeceu e foi embora. Por sinal, esse não foi o único abraço que recebi, nos dois dias de audiência. E por isso mesmo, sinto que mudei... 

É mesmo incrível o poder do afeto.