terça-feira, 10 de julho de 2012

Um exemplo de homem, meu avô João

Você esteve ali desde o início... deve ter fica surpreso quando soube que eu estava a caminho, mas tratou de abrir um espaço que seria só meu na sua vida. Provavelmente, esperava o almoço ficar pronto quando soube que eu não queria mais esperar, e foi a hospital me ver, esquecendo a fome e o fato de que era um domingo, 13h15.

Quem sabe - porque eu não me recordo - mas você presenciou momentos importantes do meu desenvolvimento... e sofreu com a separação, ainda que temporária. Abrigou a todos nós, quando essa nova família decidiu seguir o mesmo caminho que você decidiu trilhar, um pouco antes.

Foi na calçada da sua casa que aprendi a andar de bicicleta, e na sua varanda, quantas e quantas vezes eu fiz bagunça! O trajeto entre a minha casa e a sua, no caminho, tantas vezes paramos na padaria que sequer existe hoje, e ganhei sonho. Outras tantas que fui levada, você entendeu que disciplina era sinônimo de passar longos minutos ajoelhada sobre o milho.

No quintal da sua casa, tantas vezes pintamos o sete enquanto você tentava se concentrar e consertar aqueles aparelhos todos. Eu achava que você era mágico, ou o Super-Homem... aquelas tvs enormes, pesadas, que você carregou por anos a fio, e que transformaram a sua coluna de forma dolorosa. Ah! e como não lembrar da mágica de deitar embaixo do carro, e fazê-lo funcionar perfeitamente?

Será que eu herdei esse gene? Sim, porque alguns das habilidades eu coloco em prática, ainda que noutras searas.

Quando eu entrei na faculdade, as suas considerações sobre ter sucesso e ganhar dinheiro... o seu orgulho na minha formatura, por ocasião da aprovação na OAB... nossa, quanta coisa você acompanhou, né?

Não sei em que momento exatamente, mas de alguma forma, os papéis foram se invertendo... e ao volante, eu é que dirigia, enquanto você - um tanto quanto apreensivo - se segurava firme e forte.

Na última sexta-feira, quando estive ao seu lado pela última vez, "seus olhos azuis como a tarde, na tarde de um domingo azul" já não eram mais azuis, já não tinham brilho... e deles eu vi escorrer uma lágrima quando me aproximei e disse que estava tudo bem. Mentira, vô, o coração estava em pedaços pela morte da pequena, e por vê-lo naquele estado.

Quando a visita terminou, 21h40, aguardamos notícias médicas em razão da sua apnéia... e rezamos - mamãe e eu - para que Deus o poupasse de tantos aparelhos, daquela morte em vida, paralizado e sem reações sobre a cama... mamãe confessou que lhe disse da nossa gratidão pelo homem que o senhor foi. E creio que tenha sido isso que o libertou do medo de partir.

Ainda que cause dor não tê-lo mais à cabeceira da mesa nas festas da família, ou que agora eu me veja sem aquele com quem eu queria percorrer o caminho até o altar, sou grata por ter visto um homem que viveu do trabalho honesto, que criou 5 filhos e sentiu a dor de enterrar um, já na velhice e cheio de limitações, a se questionar por que ela, e não o senhor.

Obrigada, vô, pelo exemplo a ser seguido. Pelo sobrenome que nem todos honram (e alguns elamearam e outros usam indevidamente e sem merecimento, para seu profundo desgosto).