terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Divagando em contos - VIII

"Acordou com o afago carinhoso do amado, e mesmo sem saber ao certo as horas, esticou-se e saiu da cama. Tentou, ao menos, posto que sentiu braços puxando de volta, envolvendo num abraço morno, afetuoso, convidando a permanecer ali, imóvel.
 
Deixou-se beijar por longos momentos, até que o senso - e o despertador - anunciou(aram): wake up, gentle couple. 
 
Pela manhã, não costuma raciocinar muito, salvo após uma xícara redentora de café. Em assim sendo, rumou à cozinha para providenciar os preparativos do desjejum. O de sempre, mesa posta para dois, e perdida nos pensamentos sobre a rotina daquele dia, foi arrebatada por outro abraço e uma chuva de beijos. Perguntou-se, pela milésima vez, como alguém conseguia acordar tão bem humorado quanto ele. E riu sozinha, grata por tê-lo ao seu lado.
 
Conversaram, trocaram palavras e beijos, olhares e manteiga. Vê-lo ali, frente a frente, parecia um sonho que demorou mais do que devia; o jeito engraçado de manter os botões da camisa abertos, para que ela os fechasse ao fim da refeição, o que seria a desculpa perfeita para agarrá-la mil vezes, ainda que sob protestos [dela] de amarrotá-lo inteiro! E tudo terminava sempre em beijos e muitas risadas.
 
Após protestos sobre a vontade de ficar e esquecer o mundo lá fora, o carro deixava a garagem e ele se ia para mais um dia de labuta. Dali em diante, era hora de cuidar de si, o que ela fazia com doses iguais de preguiça e zelo. Uma hora depois, era o outro carro que saía... 
 
A caminho do destino matinal, ela se deixava conduzir por pensamentos sobre passado e presente; sobre o presente que havia recebido, após muitos e muitos anos pedindo em orações. Ponderava cada conflito, cada caminho sinuoso que atravessou (ou atravessaram, juntos) para chegar onde estavam. Dizia sempre que, apesar de não ser feliz o dia todo, considerava-se feliz todos os dias. 
 
E assim, entre tropeços e levantes, ambos tocavam a vida, olhando sempre as cicatrizes, como forma de não esquecer o que viveram, tampouco tornar a abri-las. 
 
Duas pessoas, um casal, um caminho construído e em construção.
 
Sempre juntos."