sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Divagando em contos - VII

"Mais um dia em que acordou, pensando no que fazia da própria vida, e no fato de não ser dona de seu tempo... tomando seu café, sentada à mesa, sentiu a mordiscada no dedão do pé... era seu cãozinho de estimação, ávido por um afago matinal.
 
Olhou as horas, e mesmo sabendo que se atrasaria ao mínimo desprezo por quaisquer das atividades programadas entre o despertar e o partir para o trabalho, soltou a xícara e pegou o bichinho, colocando-o no colo e fazendo-o feliz da vida com tantos carinhos.

Retornou ao quarto, banhou-se, perfumou-se, escolheu o vestido mais confortável e adequado ao dress-code corporativo, calçou sapatos baixos condizentes, arranjou os cabelos num prático coque para esconder a preguiça de elaborar um penteado, maquiou-se e partiu.
 
Obviamente, o horário avançado era sinônimo de trânsito caótico; não se deixou contaminar, mantendo os vidros fechados, a música favorita, escondida atrás dos óculos escuros. Externamente, uma executiva como muitas outras; por dentro, uma mulher sedenta por uma vida mais simples, mais doméstica, menos formal e mais flexível.
 
À medida em que se aproximava do local de trabalho, as cores esmaeciam, o som perdia volume, e se deixava invadir pelo sentimento de aprisionamento, em virtude das tarefas e do horário a cumprir. Nem o chá quentinho, a secretária solícita, o telefone silencioso eram capazes de injetar-lhe ânimo. Não blasfemava, é verdade; limitava-se a contemplar o mar através das janelas de vidro... 
 
Lá embaixo, crianças construindo castelos na areia, banhistas se deliciando com a água morna, vendedores indo e vindo, enquanto atletas corriam determinados. O sol distribuía beijos delicados a todos, e não tardaria para que se empolgasse e findasse por espantar alguns... quanto a ela, estava ali perdida entre o concreto e o fluido, fisicamente presente, emocionalmente entorpecida.
 
Ocupou-se, para que a tristeza não consumisse suas forças; e assim o dia passou. Mais um. Missões cumpridas a contento - e com louvor - credenciavam o deleite de horas prazeirosas, antes do necessário repouso noturno.  Conseguia ser feliz - em média - por quatro horas ao dia. Ciente de que eram as doze horas dedicadas ao labor o passaporte para essa felicidade, deitava-se e buscava o descanso merecido... 
 
No pain, no gain."