sábado, 27 de dezembro de 2014

Cartas para Alícia - I

Dos seus cinco aniversários, acompanhei três. Sei que é estranho e confuso ganhar uma festa duas semanas antes da data do seu nascimento, e pior ainda, perder o referencial de celebração no ano; mas isso é coisa de adulto, um dia você vai compreender, e talvez possa me explicar.

Eu sei que você está triste, e mesmo sendo tão pequena, já se deu conta de que nem sempre o seu desejo - por mais legítimo que seja - será atendido, porque há interesses que perpassam a preservação do seu bem-estar físico, mental e emocional. Só quero que você saiba que eu tentei, porque Deus já sabe, mas você não. Um dia, quando chegar a hora, contarei.

Você se lembra daquele dia em que fomos ver o apartamento? Pois é, eu não esqueço, e meus olhos marejam cada vez que penso em quantos planos você fez para o seu quarto... eu prometo que, muito em breve, ele estará lindo e arrumadinho do jeito que você sonhou, inclusive com um tapetinho ao lado da cama, para que a Charlotte possa dormir lá, como você quer.

Quero dizer, ainda, que somos uma família, e sei que você sente e sabe que é real, sempre foi; mesmo antes de termos o nosso apartamento, como você diz. O vínculo que há entre nós - seu pai, você e eu - não pode e não vai ser dissolvido, ainda que esse seja um propósito de vida para alguns. A despeito de muitos me dizerem que eu deveria ter filhos, penso que, se seu pai e eu podemos trabalhar mais e mais, e assim proporcionar a você oportunidades melhores, isso deve ser a nossa prioridade. Conosco, nada será dividido; nem possibilidades, nem afeto, nem atenção, nada. 

Ah! Dia desses, seu pai e eu fomos assistir a um filme, e uma fala calou fundo em mim... na cena, o pai vela o sono do rebento, e diz que aquele repouso é sereno porque ele sabe o quanto é amado. Talvez seja por isso que, ao nosso lado, os cochilos da tarde ou as noites sejam assim, abençoados pelo amor que nutrimos por você. 

Sinto muito, muito mesmo, não poder reivindicar a sua permanência, a manutenção da realidade na qual você cresceu, seus laços afetivos, sua escola, seus amigos, suas referências, tudo aquilo com o que você se acostumou. Perdoe a minha limitação, e compreenda os motivos do seu pai. Sou testemunha: ele tentou. Não usou todas as armas disponíveis, mas as que foram permitidas; se você tiver de julgar alguém no futuro, que não sejamos nós dois. 

...enquanto escrevo essas palavras, penso nas diversas vezes em que você disse que não quer ir embora. E choro. Mas preciso ser forte, porque com a sua partida, você vai levar consigo a alegria de viver do seu pai, e ninguém se preocupa com o que ele sente, também. Mas foi nos meus braços que ele desmoronou, deixou-se tomar pela dor, pelo desespero, pela impotência, pela decepção da falta de apoio. Sinto muito por você, novamente, já que eu sei o quão importante é a figura do pai para o desenvolvimento emocional de uma menina. 

Que desespero é pensar em ver você pedindo para não ir embora! Cada vez que você diz isso, eu morro um pouco... e peço a Deus que, pelo menos Ele, ouça a suas súplicas! 

"De que serve ter o mapa
Se o fim está traçado
De que serve a terra à vista
Se o barco está parado
De que serve ter a chave
Se a porta está aberta
De que servem as palavras
Se a casa está deserta?"
(Quem me leva meus fantasmas - Pedro Abrunhosa)

Aqui, na voz de Maria Bethânia.