quarta-feira, 22 de maio de 2013

Reclamar é preciso

Uma amiga me disse, certa vez, que havia se tornado intolerante; advogada (assim como o marido), a qualquer ameaça de lesão a direito seu e de terceiros, ajuizava uma ação. Foi assim contra a companhia de água e esgoto, que ridiculamente deixava a população da localidade sem água por absurdos quinze dias seguidos. Após o protocolo da ação, seguidos os trâmites regulares, o que antes era impossível, foi feito.

Leia-se "impossível" como má-vontade, ou ato protelatório. Isso porque o brasileiro reclama na mesa do bar, reclama em casa, reclama no trabalho, mas não interpela quem pode solucionar, não pressiona, deixa por menos. A Revista Época, há algum tempo, publicou uma matéria sobre isso... sobre a grávida que não exige que a pessoa desocupe o assento preferencial no transporte coletivo, sobre a professora que comprou uma esteira entregue com defeito e nada fez. A matéria "Por que o brasileiro não reclama?" está nesse link: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG79639-6014-492,00.html

No caso da minha amiga, a companhia alegava - administrativamente - que o problema de falta d'agua era ocasionado pelo fato de não haver em determinado local, uma bomba capaz de levar água de um reservatório a outro. Bastou o juiz determinar aplicação de multa diária, caso a tal bomba não fosse adquirida e instalada, para um "milagre" acontecer e, pasmem, a população voltar a ter acesso à fonte de vida, direito básico do cidadão.

Confesso que antes achava um exagero recorrer ao Judiciário para tudo, mas o cotidiano me provou que se não for assim, teremos nossos direitos violados pelo simples fato de que a qualidade dos produtos e serviços colocados à disposição nesse país é inferior, e nós nos conformamos com isso, "deixamos para lá". 

Daí que minha tv Samsung, após 15 meses de uso, apresentou defeito no painel de LED. A priori, cogitei de "deixar para lá" e comprar uma nova; afinal, o pensamento era de que a garantia havia expirado. Só que resolvi raciocinar, usar meu conhecimento e fazer algumas pesquisas, e, vejam só, descobri que a tecnologia de uma tv dessas de plasma, LCD ou LED, em tese, gera uma expectativa de vida útil do equipamento em mais de 20 anos. 

Ao ler o termo de garantia, outro absurdo: o fabricante diz que a garantia fornecida é de 9 meses, o que adicionado à garantia legal de 3 meses, somaria 12 meses. STOP! Pode até estar lá, escrito, mas não é nada disso, trata-se tão somente de mais um mecanismo de burla ao direito consumerista. Se o fornecedor/fabricante/vendedor faz a propaganda dizendo que a garantia é de 12 meses, presume-se que seja esta a garantia que chamamos de "contratual"; a ela, soma-se a garantia "legal", estabelecida pelo Código de Defesa do Consumidor. Ou seja, na prática, teremos 15 meses de garantia.

Inconformada por ter sido lesada, abri uma reclamação no PROCON, e fiquei chocada quando ouvi de um dos conciliadores, por telefone, que a garantia era de 9+3, e não de 12+3; como a reclamação foi virtual, anexei jurisprudência, matérias sobre vida útil dos equipamentos, e tudo o mais relacionado ao meu caso. Ressalto que se o PROCON não tivesse formalizado a reclamação, eu iria buscar o Judiciário de toda forma.

Paralelamente, compartilhei o fato em redes sociais, e no site "Reclame Aqui"; e eis que 15 dias após a formalização da reclamação no PROCON, o pessoal da SAMSUNG me ligou, dizendo que a tv seria reparada "sem ônus"; blah-blah-blah. Que fique claro: não é gentileza, não é cortesia, é uma tentativa de me calar e evitar que eu siga propalando aos quatro ventos como eles são desidiosos com quem adquire produtos da marca. 

O que eu quero dizer com tudo isso é que a gente não pode se conformar com os absurdos. Reclame, revindique, incentive as pessoas a fazer o mesmo, substitua o "deixa para lá" pelo "não, eu não aceito, eu tenho direitos!". Só assim, quem sabe daqui um tempo, a gente promova uma nova consciência social, e que o tolerável hoje seja o inaceitável de amanhã, e com isso haja uma mudança no conceito de que "um reclama, e dez não".

Vamos fazer a nossa parte!