quarta-feira, 12 de agosto de 2015

A observadora: sobre a consciência das responsabilidades

Sempre fui muito crítica quanto à forma como fui criada. Por sinal, não poupo minha mãe quanto aos erros crassos, especialmente quanto ao fato de ter-nos dado refrigerante na mamadeira, ou suplemento alimentar logo-após-o-almoço (a.k.a. Sustagem).

Entretanto, justiça há que ser feita quanto ao fato de que, aos 22 anos, ela casou (grávida), e cuidou da casa, do bebê, tudo isso sem ajuda alguma. Sua graduação foi nesse período, o que significa que ela também não abandonou a faculdade. 

Engravidou novamente, cerca de dois meses após o meu nascimento; ou seja, ela criou dois bebês, simultaneamente. Sem babá, sem diarista/doméstica/faxineira, sem tia (minha mãe só tem uma irmã), sem vovó (minha avó materna morreu antes que mamãe se casasse), sem p* nenhuma. Tampouco nos colocou "na creche", ainda usando fraldas. 

Com um ano de idade, ela e o meu pai me convenceram a abandonar a chupeta. Se tive que usar aparelho ortodôntico, nada tem a ver com isso. Creio que a mamadeira foi embora logo em seguida...

Pouco me recordo quanto a detalhes acerca de limpeza da casa, mas há um fato inexorável: sempre comemos comida de verdade, sempre tivemos roupas limpas, e nossa casa nunca foi um chiqueiro. Sim, eu tive toda sorte de mazelas que adquirimos no convívio com outras crianças, na idade escolar. Meu irmão passou boa parte da vida sem os "tampões" dos dedos, arrancados nos chutes de futebol. Mamãe trabalhou em hospital durante uma parte da nossa infância, e quando eu tinha 7 anos e meu irmão, 6, ela teve outro bebê.

Ah, antes que eu seja publicamente apedrejada, quero esclarecer que compreendo perfeitamente as mães que, por questões financeiras, precisam retornar ao trabalho após o fim da licença-maternidade. Conheço várias delas que, mesmo trabalhando em horário integral, ainda sim eram MÃES o suficiente para virar a noite ao lado do berço de uma criança com febre, e ir trabalhar no dia seguinte. Ou preparar toda a comida que era ofertada à criança, lavar roupa, fazer faxina, e dar atenção ao companheiro. Para surpresa geral, estão todas vivas hoje, ok?

E minha mãe passa ao largo da perfeição, viu? Há cada história hilária, como o fato de ela nos esquecer na escola, vez ou outra, e depois chegar como se nada tivesse acontecido, kkkkk. Mãe, ainda vou escrever um livro sobre isso!

A questão é que, atualmente, há criaturas que optam pela maternidade sem saber se vão dar conta do recado. No meio da história, um, dois, três ou mais filhos cuja referência de segurança, responsabilidade, afeto e afins, é pulverizada, quando deveria ser centralizada. Sejamos francos: quem não está disposto a abrir mão de qualquer nível de mordomia, deveria ponderar bastante a ideia de procriar. 

Novamente, cito exemplos de mulheres que chegaram à maternidade, voluntariamente ou não, e que fazem das tripas coração o impossível para participar ativamente da vida das crias. Mesmo cansadas, exaustas, à beira do abismo, não trocam um prato de feijão com arroz por um pacote de salgadinho, ou macarrão instantâneo, quando a questão é alimentar um filho. A todas essas mulheres, só tenho a pedir à Deus para que seus exemplos se propaguem, e com isso convidem à reflexão: estou disposta a abrir mão da vida que eu levo, em prol do "ideal" de ser mãe? Depois, a louca-egoísta-madrasta-da-Disney sou eu, né?

Às Flávia(s), Andrea(s), Roberta(s), Su(s), Gabi(s), Ju(s), Ro(s), e algumas outras cujos nominativos não tenham sido citados aqui, aceitem minhas reverências. Vocês são o motivo pelo qual eu admiro a maternidade realista e devotada. 

E fica o convite à reflexão: "Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim." (Chico Xavier)