quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Enfileirando emoções

"-Escreva. Ponha para fora seus demônios e seus anjos!"

Não foi a primeira vez que recebi esse "recado", mas coincidiu com uma postagem após uma centena de dias sem uma linha sequer por aqui. Mesmo tendo retrucado que meus escritos incomodam, ouvi um sonoro "não importa, escreva!", novamente.

Escrever, para mim, sempre foi a melhor forma de enfileirar sentimentos e fazer com que ganhem sentido; faz parte do processo de lidar com a vida. Ocorre-me, agora, enquanto escrevo, que talvez o fato de não ter lidado muito bem com determinados fatos detenha relação com a dificuldade de progredir com a terapia. A sensação de estanque me incomodava, e só agora consegui compreender o porquê.

Mas o que conduz meus dedos pelo teclado hoje é a mágoa. Obviamente, quanto mais perto você permite que alguém se aproxime, maior a probabilidade de acabar ferido; eu, nessa vibe de ser "preto" e "branco", tipo "nada cinza", traz a questão de que eu costumo me ferrar por deixar alguém chegar muito perto, e devo estar perdendo [vejam bem, digo "devo" porque, honestamente, não acredito que haja perda alguma nisso] quando impeço que certas criaturas avancem. 

Pois bem, a ferida que está sangrando é antiga... daquele tipo que nunca cicatrizou, e nem vai, por ser profunda e estar enraizada em órgãos vitais. Consigo criar uma "casquinha", mas que é tão frágil, que pode ser removida com duas ou três palavras. Estou sangrando, e escrever é a esperança de diminuir não só a dor, mas o volume a ser perdido.

Quando penso nas incontáveis vezes em que permiti uma ofensa [direta ou velada, disfarçada de "sugestão", ou de "algo para reflexão"], sinto raiva de simplesmente não reagir. Isso porque só quem ama consegue transfixar o coração de alguém tão facilmente, e com tanta intensidade, a ponto de impedir um revide. Digo isso porque, há algumas semanas, fui ofendida por um superior hierárquico e gritei imediatamente, bem desaforada, e saiu automaticamente. Quando não existe relação de afeto, a gente mantém a guarda alta, como nas lutas; porque sabe que o outro pode golpear, e não se deve bobear. 

Entretanto, no seio familiar, não existe essa de guarda levantada; daí os nocautes certeiros, visto que não se espera. E depois que a gente "acorda" do blecaute temporário, não sabe o que fazer, fica perdido. Não há vencedores, somente derrotados. Em verdade, só você está derrotado... porque se vem permitindo, ao longo da vida, comentários assim, o Universo está mandando um recadinho que você não anotou, baby. Volte duas casas.

Supostamente, é simples, e as revistas estão aí para mostrar como se faz; você não faz porque não quer, loser

Nigel: (para Andy, que está comprando o almoço), sopa de milho. Isso é uma escolha interessante. Você sabe que a celulite é um dos principais ingredientes do creme de milho? *

*Trecho do diálogo entre Nigel e Andy, em "O Diabo Veste Prada".