segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Quantos outros Joaquins?

Recebemos todos, com pesar, a confirmação da morte do menino Joaquim; onde se mencione o fato, a perplexidade é geral. Como cidadã, busco não me influenciar pelo que tem sido noticiado; como advogada, aguardo dados concretos oriundos da investigação, fornecidos à imprensa através de coletivas.

O que tenho mais dificuldade de entender é o fato de que ainda há, no mundo, gente capaz de intentar contra incapazes. Ok, consigo compreender que criar uma ou mais crianças não é missão fácil, tampouco cor-de-rosa, como se prega por aí. Mas quem opta pela maternidade sabe - ou pelo menos deveria saber - que não se volta atrás na decisão, que é para a vida toda.

Vamos lá, a comparação é rasa, mas ilustra a questão de uma forma, digamos, mais didática: a criatura quer comprar um carro. "Namora" a ideia, pesquisa marcas, preços, questiona amigos e parentes, lê revistas especializadas, vai à revenda, faz test-drive, volta para casa, pensa, faz cálculos e mais cálculos, até decidir e efetuar a compra. 

Com relação a filhos, poucas são as famílias que se programam; creio que, se fizermos uma pesquisa junto aos nossos pais, descobriremos que poucos de nós fomos planejados, queridos, "estudados". Eu mesma sou fruto de um "vacilo", e ouvi inúmeras vezes da minha própria mãe: "se na época que eu engravidei de você, tivesse ouvido meu pai, não teria me casado e teria criado você sozinha", ou ainda, "se eu tivesse a cabeça que eu tenho hoje, não teria tido filhos". 

Ainda sim, fui criada com zelo e diligência, e meus pais nunca atentaram [seriamente] contra a minha integridade física. Mesmo o meu pai, cujo sangue-quente eu provavelmente herdei, que nos momentos de fúria nos batia, jamais disse que nos mataria, ou algo do gênero. O que quero dizer com isso é que, mesmo que nenhum de nós tenha sido planejado, estamos todos hoje aqui, adultos e criados.

As pessoas se espantam quando digo que não pretendo procriar, como se a maternidade fosse requisito essencial na vida de uma mulher. Tanto não o é, que há casos e casos de abandono, agressões e afins. Se toda mulher avaliasse a si mesma, antes de engravidar, provavelmente não embarcaria nessa jornada sem volta. 

Lógico que há casos como o da minha amiga Flávia, que nasceu para o "ofício" de ser mãe, e o é com maestria; tanto que foi presenteada com outra vida, o nosso já amado Rafael. Quando questionada sobre a maternidade, no caso da Isa [que tem algumas alergias e precisa de um cuidado mais próximo], ela costuma dizer que "desde o começo, sabia das consequências da decisão de ser mãe", e resignadamente, buscou informações sobre cada um dos problemas que se apresentou. Nunca, nunca mesmo, ouvi minha amiga se maldizer ou lamentar a escolha que fez. 

Enfim, a lição que se pode tirar disso tudo é aquele velho ditado: quem pariu Mateus, que o balance. Pariu? Ok, não transfira a responsabilidade de criar e educar seu filho; não use subterfúgios para "se livrar" dele, no sentido figurado ou não. Porque "se livrar" não é só matar, ou permitir matar, como tudo indica que tenha ocorrido com o pequeno Joaquim; é também se omitir diante das situações, é delegar a terceiros (avós, tios e tias, babás, escola, igreja) uma missão personalíssima, que é a de formar um ser humano, com valores éticos e morais.

E o amor, onde está?